depredando:

Poema de Otto René Castilho
(Guatemala, 1934-1967)

Guerrilheiro das Forças Armadas Rebeldes,
foi preso, torturado e imolado.

INTELECTUAIS APOLÍTICOS

Um dia, os intelectuais apolíticos do meu país
serão interrogados pelo homem simples do nosso povo
Serão perguntados sobre o que fizeram
quando a pátria se apagava lentamente,
como uma fogueira frágil, pequena e só.
Não serão interrogados sobre os seus trajes,
nem acerca das suas longas sestas após o almoço,
tão pouco sobre os seus estéreis combates com o nada,
nem sobre sua ontológica maneira de chegar às moedas.
Não serão interrogados acerca da mitologia grega,
nem sobre o asco que sentiram de si,
quando alguém, no seu fundo,
dispunha-se a morrer covardemente.
Ninguém lhes perguntará sobre suas justificativas absurdas,
crescidas à sombra de uma mentira rotunda.
Nesse dia virão os homens simples.
Os que nunca couberam nos livros e versos
dos intelectuais apolíticos,
mas que vinham todos os dias
trazer-lhes o leite e o pão,
os ovos e as tortilhas,
os que costuravam sua roupa,
os que manejavam seus carros,
cuidavam dos seus cães e jardins,
e para eles trabalhavam, e perguntarão,
“Que fizestes quando os pobres
sofriam e neles se queimavam,
gravemente, a ternura e a vida?”
Intelectuais apolíticos do meu doce país,
nada podereis responder.
Um abutre de silêncio vos devorará as entranhas.
Vos roerá a alma vossa própria miséria.
E calareis, envergonhados de vós próprios.

(Tradução de Jeff Vasques | mais poemas de Otto René)
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