
Foto da semana: ‘Um samba pelo telefone’
É dia de Alegria! Pegue o cavaco, o pandeiro e o tamborim porque hoje tem esquindô lá, lá aqui no Facebook da CH! Ainda é carnaval e, por isso, vamos falar de samba, ‘a voz do morro’, uma relíquia do folclore nacional! Apesar de ser natural aqui do Rio de Janeiro, a alegria primeiro atravessou o mar antes de ancorar na passarela carioca: a origem do samba está na mistura de ritmos africanos como o lundu e o batuque, com influências encontradas aqui no Brasil, como o choro e o maxixe.
Mas se hoje temos essa maravilha de cenário em que ritmo está nos corações brasileiros, nem sempre ele foi considerado uma joia rara da cultura nacional. Na época do primeiro registro oficial gravado do ritmo, a música ‘Pelo telephone’, de Ernesto Soares, o Donga, e Mauro de Almeida, que data de janeiro de 1917 – e ainda por muito tempo depois disso – o samba era encarado como música barata sem nenhum valor.
A composição de Donga é um marco por ter sido o primeiro samba a fazer grande sucesso popular, mas os detalhes a respeito da música – composta nas rodas de samba que aconteciam na casa de Hilária Batista de Almeida, a Tia Ciata, na Praça Onze – são cercados de polêmicas e incertezas. Quando Donga registrou a composição na Biblioteca Nacional sob sua autoria, muitos dos participantes dos encontros na Praça Onze reivindicaram crédito (ainda mais depois do sucesso da música), mas só a participação do cronista Mauro de Almeida foi reconhecida.
Ouça uma interpretação clássica de ‘Pelo telefone’, nas vozes de Chico Buarque e do próprio Donga: http://www.youtube.com/watch?v=-XPFQIrdAL4
Outras polêmicas marcaram ‘Pelo telefone’: provavelmente ele não foi sequer o primeiro samba gravado (uma vez que historiadores já encontraram registros mais antigos e menos famosos) e a própria letra da composição chama atenção pelo inusitado – e pela irreverência. Existem duas versões, a ‘oficial’ e outra, que caiu no gosto popular e ridiculariza Aureliano Leal, chefe de polícia da capital federal na época.
Como conta o livro ‘Irineu Marinho – Imprensa e cidade’, da historiadora Maria Alice Rezende de Carvalho, uma das editoras científicas do Instituto Ciência Hoje, a inspiração seria um episódio que envolveu repórteres do jornal ‘A Noite’. Depois de montarem uma roleta em pleno centro da cidade para ridicularizar o oficial, os jornalistas denunciaram brigas motivadas pelo jogo nos clubes da capital – Aureliano ordenou, então, a prisão de qualquer um envolvido com jogatina, mas orientou a seus comandados que primeiro avisassem os infratores pelo telefone.
O resultado? Enquanto a versão oficial da música dizia: “O chefe da folia / Pelo telefone / Manda avisar / Que com alegria / Não se questione / Para se brincar”, a popular não perdoava: “O chefe da polícia / Pelo telefone / Mandou avisar / Que na Carioca / Tem uma roleta /Para se jogar”
Leia mais sobre o livro e o episódio:http://oglobo.globo.com/blogs/prosa/posts/2012/12/01/a-partir-da-trajetoria-de-irineu-marinho-obra-mapeia-mudancas-no-rio-477218.asp
Depois do sucesso de ‘Pelo telefone’, o samba ganhou mais força com a chegada do rádio, na década de 1920. Em 1929 surgiu a primeira escola de samba, ‘Deixa Falar’, logo seguida por outras como a ‘Estação Primeira de Mangueira’ e a ‘Vai como Pode’, a atual Portela. Desde então, o samba não acabou nem quando o dia clareou!
E bumbum paticumbum prugurundum ficou ainda maior com a construção do Sambódromo do Rio de Janeiro, projeto do onipresente Oscar Niemeyer inaugurado em fevereiro de 1984 – o zum-zum-zum que passou a vir da Sapucaí transformou de vez o carnaval no maior show da Terra.
Leia mais sobre a história do samba:
http://museuhoje.com/app/v1/br/historia/72-a-origem-do-sambaConfira um encarte da época com a partitura completa da música, disponível no acervo da Biblioteca Nacional:
http://objdigital.bn.br/acervo_digital/div_musica/mas495033.pdfLeia uma matéria da Revista de História, do Museu Nacional, sobre a descoberta da partitura original do samba ‘Pelo Telephone’:
http://www.revistadehistoria.com.br/secao/por-dentro-da-biblioteca/a-certidao-de-nascimento-do-samba
Confira a letra completa da composição:
http://letras.mus.br/donga/1120957/Leia nossa resenha de um recém-lançado livro sobre Noel Rosa:
http://cienciahoje.uol.com.br/resenhas/2012/08/filosofo-do-samba/?searchterm=sambaEm artigo da revista ‘Ciência Hoje’, pesquisador fala sobre a autenticidade no samba e no choro:
http://cienciahoje.uol.com.br/revista-ch/2011/283/nao-deixe-o-ritmo-morrer/?searchterm=sambaTambém na Ciência Hoje, tese premiada discute o que é ‘bom’ e o que é ‘ruim’ no samba e no choro e mostra que classificações populares nem sempre têm a ver com a estética da canção: http://cienciahoje.uol.com.br/revista-ch/2014/311/musica-de-raiz
Testamento de fabricante de instrumentos musicais português revela mais sobre música brasileira do período colonial: http://cienciahoje.uol.com.br/revista-ch/2013/310/violeiro-dos-tempos-antigos
Outra matéria, essa da ‘CH On-line’, fala sobre a relação do samba com a urbanização do Rio de Janeiro:
http://cienciahoje.uol.com.br/noticias/geociencias/a-geografia-do-carnaval-carioca/?searchterm=sambaNa Ciência Hoje das Crianças, confira também:
A história do carnaval, do início do século 19 aos dias de hoje: http://chc.cienciahoje.uol.com.br/quem-nao-gosta-de-samba/
Confira a galeria completa de nossas “Imagens da Semana”.
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